O Dia da Criança convida a refletirmos um pouco acima do nosso mundo infantil, lembrar da criança que um dia fomos, das suas vivências e da criança que ainda somos.
Existem várias versões quanto a crucial importância da primeira infância, das mais teóricas às mais populares, talvez você tenha escutado alguma delas: o mundo adulto tem as suas raízes na infância, no período de um a sete anos se formam as psicopatologias futuras, os primeiros sete anos de vida vão ditar a sua vida, o berço será o cobertor, etc.
Como psicóloga clínica, posso confirmar, do que mais se fala numa sessão psicoterapêutica é justamente desse vinculo primário, seus restos e suas marcas, simplesmente porque somos no presente o acumulo do passado ou dito de uma maneira diferente, somos o resultado daquilo que fizeram conosco no passado.
O intuito do tratamento psicológico é justamente dar autonomia a esse adulto que colou na criança, pois, ao começar o processo psicoterapêutico se chega em uma espécie de fusão com essa criança, quando se sai, é esperado que seja com a criança ao lado.
Por tanto, me permita lhe perguntar, por onde anda a criança que um dia você foi? Você percebe quando ela emerge e de que forma? Sobre qual solo a sua criança cresceu? Ela foi inibida, reprimida e só escapa ou se manifesta nas situações que você (como adulto) permite?
Se conectar com o nosso infantil não é algo fácil, é como querer enxergar no efêmero algo permanente, mas é tremendamente possível e clinicamente comprovado. O processo psicoterapêutico trata de fortalecer o sujeito adulto para que possa atuar como adulto e todas as suas incumbências. E como saber se somos suficientemente adultos? Se conectando com o infantil e suas fragilidades.
Qual seu sintoma? Qual a sua repetição? Qual é o padrão dos seus relacionamentos? A culpa é sempre dos outros? Costuma se vitimizar? Se desestabiliza facilmente? Consegue ser contrariado? E com as críticas, como reage? É sempre “sincero”, mesmo ofendendo? Está sempre na defensiva? A impulsividade, a inveja, o ciúme, a dependência, lhe diz algo? Temos muitos diagnósticos atualmente circulando, mas na maioria das vezes é só uma criança ainda muito viva no inconsciente do adulto, qual com seus recursos infantis apenas tenta ser vista e amada.
Seja ansiedade, seja depressão ou qualquer outro transtorno psicológico e sua manifestação é um reflexo do nosso universo infantil. Talvez seja fácil perceber em alguns momentos específicos a criança no adulto, contudo, seguir esses rastros para entrever o que essa criança no adulto está de fato tentando dizer é um trabalho muito complexo.
No decorrer do seu desenvolvimento, toda criança se depara no vínculo primário com experiências, sentimentos e emoções que não consegue integrar, ou que integra parcialmente. Saber dessas vivências, das defesas que precisou organizar e dos recursos internos que teve que criar no seu processo de subjetivação ajudam a entender o funcionamento psíquico e seus percalços.
Agora entende a correlação dos acontecimentos atuais com a sua criança interior e a tamanha importância de ser investigada? Convocar e evocar o infantil, é atravessar a fantasia que fixa o adulto numa sofrida repetição, desfaz uma alienação que faz andar em círculo, fortalecendo o ego para que o sujeito apareça: autônomo e responsável. Quanto mais independente, mais adulto se é!
Não se pode negar uma origem, mas tampouco tomá-la como destino.
“A infância é o chão que a gente pisa a vida inteira” Lya Luft