Amor

Blog da Anca Jarca Psicóloga

A escolha do nosso amor, a forma de amar e de nos sentirmos amados ou inclusive a incapacidade de amar, veladamente nos diz sobre as nossas dinâmicas inconscientes que moldaram o nosso ser desde a mais tenra idade. Ao compreender essas formações inconscientes, atreladas aos moldes morais, sociais e culturais, é possível ter relações significativas e saudáveis, mas raramente conseguimos integrar todas essas influências de uma forma emocionalmente libertadora. O tratamento psicológico se faz necessário na desconstrução de padrões repetitivos, frustrantes e exaustivos.

A atemporal escritora Clarice Lispector já nos avisava “quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer.”

Entender as dificuldades psíquicas relacionadas ao amor, faz mergulhar ao infinito entre os polos da supervalorização e a depreciação, existe um sem fim de possíveis causas, barreiras, fixações que podem ter gerado relacionamentos doentios ou insatisfatórios. Ao idealizarmos uma esperança de completude ou perfeição muito raramente nos questionamos quanto a nossa autonomia emocional. Ao esperar do nosso amor cuidados parentais, é pouco frequente aprofundarmos o porquê dessa necessidade infantil. Ao querer um controle absoluto, estamos ignorando um medo interno que nos monopoliza. Ao venerar o nosso amor, não imaginamos o perigo e a rapidez desse amor virar em castigo, culpa ou frequentemente em ódio.

Aprender a se questionar e se escutar é um exercício, que deve ser impulsionado com muito cuidado, paciência, preparo e estudo. Curar traumas, localizar tensões, revelar conflitos, é praticamente impossível sem a ajuda de um especialista da área de saúde mental. A clareza que a psicoterapia proporciona ajuda a regular nossas expectativas e percepções quanto ao amor, possibilitando relações autênticas e responsáveis.

Ao crescer e nos desenvolver cada um faz o possível para sobreviver, criando mecanismos de defesa conforme próprio entorno e possibilidade psíquica, não existe um certo ou errado, tal como não existe um modelo de amor melhor do que outro. Através da psicoterapia nos conhecemos emocionalmente, entendemos nossa forma de amar, o que ajuda a mudar hábitos e preparar escolhas, podendo ter relacionamentos mais equilibrados e menos dependentes.

Saber o que é amar é uma tarefa dificilíssima, como muito bem dizia o poeta Fernando Pessoa “porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem o que é amar…” Não sabemos dizer porque amamos, sempre faltam palavras para explicar profundamente o que sentimos. E para ser desconcertante até o final, tampouco sabemos dizer por que somos amados. Imaginamos uma série de coisas e se temos uma confissão sincera ficamos absolutamente surpreendidos, porque sempre somos amados por algo que nunca imaginamos.

O amor e sua escolha é sempre subordinado a uma fantasia, que nos move no percorrer da vida. O objetivo de um tratamento psicológico é atravessar essa fantasia através da análise da sua própria história e formação individual, não em busca de um determinismo causa e efeito, mas na tentativa de elaborar e ressignificar padrões repetitivos e destrutivos, criando possibilidades de relacionamento verdadeiramente íntimos e autênticos.

Amar desafia a lidar com a falta, sua e a do outro. O amor não é promessa de felicidade, e muito menos de completude, simplesmente porque o amor não é capaz de eliminar a falta e o mal estar que nos constitui enquanto seres humanos. Amamos para além do que o nosso amor parece ser, amamos pelo que se é, na sua totalidade faltosa, aceitando erros, defeitos, fraquezas, imperfeiçoes, próprias e a do outro, eis o amor na sua conexão genuína.

O convite da psicoterapia é justamente para aprender a deslizar melhor nas facetas do amor, para chegar a saber escolher e investir em um amor que permita de fato ao amor se manifestar na sua mais absoluta diferença, sua própria e a do outro.

Amar e sofrer não precisa andar de mão dada. Através de uma investigação mais ampla é possível analisar o amor e tentar entender para que ele veio, para que ele serve, qual posição dele na minha fantasia, o que ele pretende, o que está tentando tamponar, qual falta está tentando obturar, o que ele quer repetir..

O amor é um dos temas mais complexos e mais estudados de todos os tempos. O amor é o espelho do mundo que carregamos dentro de nós, revela desde os nossos desejos mais escondidos, até as formas sublimatórias mais impressionantes. Não há possibilidade de vida sem o amor, sem ele não existimos, é o nosso campo fértil para a autodescoberta e crescimento, pois como já dizia Sigmund Freud “Se você ama, sofre. Se não ama, adoece.”

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