O Luto

Blog da Anca Jarca Psicóloga

Afinal, o que é o luto?

Na noss contemporaneidade, qual continuamente oferece uma multiplicidade de atrações, o luto, se faz uma palavra estranha e muito pouco sentida.

Muitas vezes a gente finge que faz o luto, mas de fato escamoteia, fica no raso, não aprofunda a subjetividade da dor, e é ai que a psicologia entra: sentir é preciso! Quando não se sente, se adoece. Quando tentamos fugir do que dói, a dor cresce. Quando acolhemos o que dói, algo em nós amadurece.

E como saber que eu não me permito fazer o luto?

Se algo na sua vida está patinando, insistindo sempre em uma repetição, é muito provável que você não tenha elaborado algum processo de luto, podendo ser este lá de trás, e o desfecho está sempre no mesmo estilo: a mesma forma de sofrer.

Luto é perda! Podendo ser uma pessoa, um animal, um emprego, um objeto, um sonho, um relacionamento, uma versão de si que já não existe mais.. mas, a pergunta é a mesma para todas as situações: o que essa perda significa para você ao ponto de não conseguir conviver com ela?

Como me reconhecer se estou perpassando um luto? A travessia do luto é sempre muito singular, não necessariamente tendo uma sequência de fases, mas podendo passar por: negação, raiva, negociação, tristeza, aceitação. Uma avalanche de emoções e sentimentos, como por exemplo: ódio ressentimento, melancolia, culpa, desesperança, saudade… sendo importante acolher cada sentimento e sentir.

A vivência do luto, quando permitida, atravessa o nosso ser ao ponto de exigir um corte na nossa fantasia de completude: obriga a nos enxergar (quem sou eu agora?) espelha as nossas faltas (qual é o meu desejo?) pede movimento (para onde eu quero ir e com qual proposito?)

O que fazer quando estou em uma fase de luto? Se permitir sentir é primordial, e a despeito do intenso sofrimento, também é preciso ter consciência do que se está sentindo e por quê. Por irônico que pareça, se perceber naquela dor, pode encurtar o caminho da recuperação. Perguntas que podem ajudar: o que exatamente eu perdi? Qual tipo de relação saiu ferida? Qual parte minha foi afetada? Quem sou eu diante dessa perda? Para onde eu quero ir agora? Minha vida pode seguir? De que forma? Para onde? Em qual direção?

Ao saber da falta, você se movimenta para sair dela. Ao se distrair, você não respeita a sua dor e tampouco avança. Ao se recusar sentir a ausência e o que ela provocou na sua vida, o circula vira infinito, você fica preso e identificado com a sua perda, você morre estando em vida.

Qual é o risco de não querer perpassar o luto?

Não se permitir sentir, se atropelar de coisas, tarefas, experiências..  pode desencadear atrasos, bloqueios no desenvolvimento da sua vida, como por exemplo: ansiedade (não conseguir estar no presente para justamente não ter o perigo de sentir) insônia (querer controlar o não sentir) adição (camuflo minha perda com drogas, comida, compras) depressão (já nada tem sentido, eu não sei mais do meu desejo) entre outros transtornos psicológicos.

O luto revela partes que antes estavam encobertas, provoca, instiga, pede uma transformação do nosso eu. É disso que estamos fugindo?

Se permitir ter a coragem de olhar para si no meio dessa perda, sentir a incompletude, é uma oportunidade de reconfigurar todas as outras perdas da sua vida. Realizar que a perda é uma falta, falta que por sua vez convida para uma mudança, dá possibilidade de contato consigo mesmo – se (re)conectar com a sua essência.

Enfrentar a dor pede pôr um ponto final para justamente poder continuar, algo precisa ficar no passado para o desejo poder se manifestar. A perda precisa se inscrever enquanto perda, mas com seu devido valor.

O processo de luto demanda um outro para fazer o processo de elaboração, normalmente um profissional de psicologia. Se ajude para ser ajudado.

“Os sentimentos precisam ser sentidos. Só assim podem passar.” Bert Hellinger

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